As projeções para as mudanças climáticas no Brasil e América do Sul levam em consideração dois fatores fundamentais: a temperatura e a chuva.
Nas regiões com melhor previsibilidade climática, como a Amazônia, o Nordeste e o Sul do Brasil, os modelos prevêem um aumento sistemático dos extremos da temperatura do ar, embora esta também seja uma tendência para o restante do país.
Em relação às chuvas, a previsão é que a Amazônia apresente uma diminuição das precipitações, assim como o Nordeste.
Nas regiões subtropicais da América do Sul corre-se um grande risco de que ocorram ondas de calor, e na porção tropical uma maior freqüência e intensidade de extremos de chuvas.
Análises regionais também foram realizadas e levam em consideração quatro regiões: Amazônia, Pantanal, Nordeste e a bacia do Paraná-Prata. Essas regiões foram escolhidas, segundo José A.Marengo*, devido a “sua importância estratégica na economia da região, e por seus aspectos sociais, econômicos e ecológicos. Os ecossistemas naturais da Amazônia e do Pantanal apresentam um alto grau de vulnerabilidade à variabilidade e mudança do clima. O semi-árido do Nordeste do Brasil é a região onde a população é mais vulnerável à mudança do clima. A importância da bacia do Paraná-Prata é óbvia, pois a região é importante sob o ponto de vista agropecuário e da geração de energia hidroelétrica para as grandes cidades do sudeste da América do Sul”.
Num estudo publicado em 2005 no relatório de mudanças de clima pelo Hadley Centre (instituto ligado ao Centro Meteorológico inglês) estima-se que a descarga fluvial no semi-árido brasileiro aumentará entre 25% e 150%. Na Amazônia e no Pantanal haverá redução entre 25% e 50%, e na bacia do Paraná-Prata a descarga das vazões deverá aumentar entre 20-40%. Marengo diz que este aumento simulado para o futuro é consistente com o aumento observado de vazões na bacia do Paraná-Prata desde 1970 até 2000, e pode sugerir que a variabilidade natural do clima, juntamente com a variabilidade externa (aumento na concentração de gases de efeito estufa) seriam responsáveis pelo aumento das vazões.
Vejamos agora como fica a previsão para cada uma das regiões citadas acima.
AMAZÔNIA
Num cenário mais preocupante os modelos prevêem (2050 – 2100) uma drástica redução das chuvas nos períodos menos chuvosos que vai de maio até agosto.
Um futuro cenário mais quente e menos úmido poderia causar uma savanização (clima e vegetação do tipo savanas africanas) da floresta amazônica e também um aumento da suscetibilidade aos incêndios florestais em grandes áreas da Amazônia. De acordo com Marengo, “eventos climáticos extremos, como secas induzidas pelo aquecimento global e pelo desmatamento, podem dividir a Amazônia em duas e transformar em Cerrado uma área de 600 mil quilômetros quadrados”.
Relatórios feitos em 2003 (Oyama e Nobre) e 2004 (Hadley Centre) estimaram que 60% da Amazônia poderia se converter em Cerrado devido aos desmatamentos e ao aquecimento. Marengo afirma que “o aquecimento e a redução de chuvas na Amazônia apontados por estes relatórios parecem corroborar as conclusões dos estudos que sugerem a savanização da Amazônia, porém as incertezas são ainda grandes”.
NORDESTE
O Nordeste brasileiro é caracterizado por um clima semi-árido e as projeções dos modelos apontam para uma elevação da temperatura e redução da umidade, podendo levar a uma “aridização” desta região do país.
Estados como Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe - que já sofrem com baixas disponibilidades hídricas – podem se prejudicar ainda mais para garantir recursos hídricos às suas populações.
De acordo com Marengo, o cenário de aridização do Nordeste “traria consequências negativas na Caatinga, que é um dos biomas mais ameaçados do Brasil, com grande parte de sua área tendo já sido bastante modificada pelas atividades humanas. A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro, e abriga uma fauna e flora única, com muitas espécies endêmicas”.
Marengo afirma ainda que o clima mais seco e quente poderia levar a população do semi-árido a migrar para as grandes cidades da região ou para outras regiões, gerando ondas de “refugiados ambientais”.
BACIA DO PARANÁ-PRATA
Para esta região os modelos simulam aumentos nas precipitações e nas temperaturas. Entretanto, Marengo alerta que embora a chuva tendesse a aumentar no futuro, não significa que possa ajudar as atividades agrícolas e a geração de energia, pois as elevadas temperaturas do ar poderiam, de alguma forma, comprometer a disponibilidade de água para agricultura, consumo ou geração de energia devido a um acréscimo previsto na evaporação ou evapotranspiração.
PANTANAL
Para a região do Pantanal as perspectivas não são muito claras, pois as anomalias de chuva e temperatura não são tão coerentes se comparadas com aquelas do Nordeste e da Amazônia. Todos os modelos apontam para um aquecimento que tende a se intensificar até 2080, mas alguns modelos mostram aumento de chuvas enquanto outros sugerem redução delas.
* José A. Marengo (CPTEC/INPE) é o Cientista responsável pela elaboração de “Mudanças Climáticas Globais e seus Efeitos sobre a Biodiversidade”; uma publicação do Ministério do Meio Ambiente e da Secretaria de Biodiversidade e Florestas. |